Mãe segura mão da filha no contraluz (Foto: Elza Fiuza/Ag. Brasil)
Segundo a pesquisa, uma em cada cinco mulheres teve contato com algum tipo de violência doméstica na infância ou na adolescência (Foto: Elza Fiuza/Ag. Brasil)
Sociedade e Cultura

Crianças de lares violentos têm mais chance de sofrer violência doméstica adultas

Pesquisa revela que 40% das mulheres que cresceram em lares violentos também sofreram violência na vida adulta

Marcos Robério
da Agência UFC

O terceiro relatório da Pesquisa de Condições Socioeconômicas e Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (PCSVDF) será divulgado nesta quinta-feira (23), em Brasília, durante evento promovido pela ONU Mulheres, entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e Empoderamento das Mulheres. A pesquisa é realizada pela Universidade Federal do Ceará, em parceria com o Instituto Maria da Penha e o Institute for Advanced Study in Toulouse. Um dos apontamentos mais alarmantes dessa terceira etapa é sobre a transmissão da violência entre gerações.

Quatro em cada 10 mulheres que cresceram em um lar violento disseram sofrer o mesmo tipo de violência na vida adulta, ou seja, há uma repetição de padrão em seu próprio lar. A chamada transmissão intergeracional de violência doméstica (TIVD) é definida como um mecanismo de perpetuação do problema, que, segundo os estudos, sugere maior incidência em lares onde a mulher, seu parceiro ou ambos estiveram expostos à agressão na infância.

O mesmo percentual (4 em cada 10 mulheres) também surge em relação ao impacto no comportamento masculino, revelando que parceiros que cresceram em um lar violento também cometeram agressões contra suas parceiras.

Segundo a pesquisa, 1 em cada 5 mulheres teve contato com algum tipo de violência doméstica na infância ou na adolescência; 23% afirmaram ter lembranças da mãe sendo agredida e 13% sabem que a mãe do parceiro também sofreu algum tipo de agressão. O estudo sugere que crianças expostas à violência doméstica têm maior probabilidade de sofrer agressões em relações afetivas ao longo de suas vidas adultas.

“Pela primeira vez na América Latina, estamos comprovando que há link entre gerações. Se conseguirmos diminuir a violência hoje, vamos melhorar também das pessoas que viverão daqui a 15, 20 anos”

O Prof. José Raimundo Carvalho, coordenador-geral da pesquisa e integrante do Programa de Pós-Graduação em Economia da UFC, destaca que os resultados são oriundos de um trabalho inédito de pesquisadores nacionais e internacionais. “Pela primeira vez na América Latina, estamos comprovando que há um link entre as gerações. Se nós conseguirmos diminuir a violência hoje, vamos não só melhorar a vida das mulheres que estão vivendo agora como também das pessoas que viverão daqui a 15, 20 anos”, afirma.

VIOLÊNCIA DURANTE A GESTAÇÃO

Outros dados apresentados pelo estudo revelam os percentuais da violência doméstica contra gestantes. Segundo a pesquisa, essa é a realidade para 6,2% das mulheres entrevistadas que já engravidaram. As cidades de Natal, Salvador, Recife e Fortaleza apresentam taxas maiores que a média. As conclusões revelam que mais do que ameaçar a saúde eo bem-estar da mulher, a violência durante a gestação pode trazer graves consequências para as futuras gerações. Revelam ainda que há 10 vezes mais incidência na gestação em casos de mulheres com menor grau de instrução. Além disso, negras e pardas representam 77,4% dessas mulheres que sofreram agressão durante a gravidez.

“Ficamos extremamente chocados com os dados que mostram que 6,2% das mulheres nordestinas já tiveram alguma experiência de violência durante a gravidez. (…) A violência doméstica não é um problema só de mulheres, que deva ser tratado só por mulheres e apenas na esfera social. É um problema de todos e todas que deve ser amplamente discutido se quisermos realmente enfrentar esse mal que mata nossas mulheres e deixa órfãs nossas crianças”, frisa Maria da Penha, fundadora do Instituto que leva seu nome.

DESIGUALDADE RACIAL E FINANCEIRA

O peso da violência doméstica também é maior quando há uma comparação entre mulheres brancas e negras. Uma em cada 4 entrevistadas negras afirmou se lembrar de episódios de violência contra a mãe. Já entre as entrevistadas brancas, 1 em cada 5 afirmou ter presenciado algo. Além disso, a mesma pesquisa apontou que, quando divididas por faixa de renda, as mulheres que ganham menos são as que mais estiveram expostas à violência doméstica na infância. À medida que a faixa de renda aumenta, diminui a probabilidade de ter ocorrido violência contra sua mãe, quando criança.

SOBRE A PESQUISA

A amostra da PCSVDF, composta por mais de 10 mil mulheres, é quantitativa, probabilística e representativa das moradoras das 9 capitais do Nordeste, com idades entre 15 e 50 anos. Para o estudo do tópico violência na gestação, a análise se restringiu às mulheres entrevistadas que tiveram pelo menos uma experiência de gravidez ao longo da vida, resultando em 4.056 mulheres que, efetivamente, responderam a questões relativas à experiência de violência na gestação. A pesquisa tem financiamento da Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres, do Governo Federal, e apoio do Banco Mundial e do Instituto Avon.

Leia também

Mulheres de Fortaleza têm perda salarial de 34% devido à violência doméstica

No Nordeste, 3 em cada 10 mulheres já sofreram violência, diz pesquisa UFC-Instituto Maria da Penha