Ônibus, carros e motocicletas passando em uma avenida, em frente a uma escola de ensino fundamental (Foto: Prof. Ivan Ary Júnior/UFC)
Nas três escolas onde foi feita a pesquisa, os ruídos estavam em níveis acima do recomendado pela OMS (Foto: Prof. Ivan Ary Júnior/UFC)
Tecnologia

O impacto da poluição sonora nas escolas

Nível de ruído em algumas escolas públicas de Fortaleza está acima do recomendado, causa problemas de saúde e pode prejudicar aprendizado

Segunda maior fonte de poluição no mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), os ruídos sonoros também podem ser motivo de incômodo na hora do estudo. Por isso, pesquisadores do Departamento de Engenharia de Transportes da Universidade Federal do Ceará têm avaliado como os ambientes de escolas públicas podem ser impactados por sons externos à sala de aula.

A pesquisa investigou o nível de ruído em três escolas de Fortaleza (uma de jardim de infância, uma de ensino fundamental e outra de ensino médio) e os efeitos disso no dia a dia escolar. Nas três, os ruídos percebidos estavam em níveis acima do recomendado pela OMS (até 55 decibéis) e pela legislação brasileira (até 60 decibéis), em alguns casos chegando a alcançar mais de 80 decibéis.

A escola mais afetada é a de ensino fundamental, localizada ao lado de uma avenida com alta circulação de veículos, próximo a uma linha de metrô elevado (como o trem não é subterrâneo, o barulho é maior) e logo abaixo de uma rota de aviões, que sobrevoam a área a uma distância de apenas 180 metros.

Os picos de barulho ocorrem nos momentos em que os trens passam ao lado da escola, a cada 21 minutos, ou quando os aviões passam pelo local, o que acontece a cada 12 minutos, no período de maior movimento. A depender do lado da escola considerado (de frente para a linha de metrô, onde há mais barulho, ou para a rua), há variação de 76 a 83 decibéis.

Tráfego de carros em uma rodovia que passa em frente a uma escola de ensino médio (Foto: Prof. Ivan Ary Júnior/UFC)
O próximo passo do estudo será investigar o nível de interferência que o excesso de ruídos tem no rendimento escolar dos alunos (Foto: Prof. Ivan Ary Júnior/UFC)

No caso da escola de nível médio, construída ao lado da BR-116, o barulho que chega até a sala de aula é de 67 decibéis, causado pela intensa circulação de veículos na rodovia. Isso se dá porque, enquanto no entorno das escolas de jardim de infância e de nível fundamental há em média, respectivamente, fluxo de 41 e 308 carros a cada 15 minutos, foi registrado na BR fluxo de 1.656 veículos, inclusive caminhões.

A pesquisa ‒ publicada recentemente (em inglês) no periódico canadense Canadian Acoustics ‒ aponta ainda que a escola de jardim de infância, situada em área residencial, é a menos afetada pelo trânsito, apresentando um dado curioso: apesar de os barulhos externos serem de até 73 decibéis, apenas 43 decibéis são percebidos no interior do colégio. Assim, são mais altos os ruídos originados dentro da própria escola, por conta das atividades das crianças (de baixa idade) e de problemas estruturais de isolamento desses ruídos internos.

Avião sobrevoando uma escola (Foto: Prof. Ivan Ary Júnior/UFC)
A escola mais afetada fica ao lado de uma avenida movimentada, próximo a uma linha de metrô e logo abaixo de uma rota de aviões (Foto: Prof. Ivan Ary Júnior/UFC)

Para chegar aos dados, foi utilizado software de modelagem virtual que produziu mapas de ruídos a partir do volume e composição do tráfego, levando-se em conta também a arquitetura dos prédios na região, que podem ajudar a propagar ou a isolar o som. Também foi feita a validação presencial dos dados com o uso de decibelímetro.

IMPACTOS

O excesso de barulho no ambiente escolar traz consequências diretas tanto para alunos, que podem ter o rendimento prejudicado, quanto para professores, potenciais vítimas de problemas de saúde. “A criança fica agitada e perde a atenção, e o professor precisa falar mais alto e fica com as cordas vocais danificadas”, resume o Prof. Mário Azevedo, que coordena os estudos juntamente com o Prof. Ivan Ary Júnior.

Reclamações quanto a essas questões foram percebidas durante as entrevistas realizadas pela pesquisa nas escolas estudadas. Os professores revelaram, principalmente, problemas de rouquidão, estresse e danos nas cordas vocais, que atribuíram à poluição sonora.

O Prof. Mário Azevedo sendo em posição frontal, em uma sala com livros e um computador (Foto: Viktor Braga/UFC)
O Prof. Mário Azevedo é um dos coordenadores da pesquisa, juntamente com o Prof. Ivan Ary Júnior (Foto: Viktor Braga/UFC)

Já os estudantes apresentaram mudanças no comportamento causadas pelos ruídos, incluindo agitação, dificuldade de aprendizado, perda de concentração e distração visual durante as aulas. A influência disso no rendimento escolar ainda será tema de estudo para os pesquisadores da UFC.

Além do barulho em si, também pode ser prejudicial a vibração existente, principalmente, nas áreas próximas às linhas de metrô. Mesmo quando pouco perceptível, ela pode ter impacto na concentração e quietude do corpo. “A vibração é como um som de baixa frequência. Você pode não ouvir, mas seu corpo está sentindo”, explica Mário Azevedo.

Os estudantes apresentaram mudanças no comportamento causadas pelos ruídos, incluindo agitação, dificuldade de aprendizado, perda de concentração e distração visual durante as aulas

A solução para o excesso de ruídos é algo que depende das especificidades da localização de cada escola e de seus problemas estruturais. Para a escola situada na rodovia, por exemplo, o Prof. Mário Azevedo afirma que uma cerca viva (barreira feita de plantas) na área externa, impedindo o som dos veículos de chegar à sala de aula, poderia ser o suficiente. Em outros casos, não é tão simples.

Escolas diretamente afetadas por várias fontes de ruídos, como a localizada próximo ao metrô elevado, precisariam de uma completa reestruturação ou até mesmo mudança de lugar. Até há formas de amenização, como a construção de barreiras de acrílico nas laterais da linha do trem para isolar o som, mas isso não eliminaria aspectos negativos como o da vibração nem o da passagem de aviões.

“O grande problema das escolas públicas é que a maioria delas não tem recurso para fechar a janela e as portas e colocar ar-condicionado”, lembra o pesquisador. “Usa-se cobogó, para manter o vento circulando, e ventilador, que também faz barulho. Quando há barulho [externo], se fechar tudo, o ambiente se torna quente”, aponta. O pesquisador diz acreditar que as dificuldades identificadas nas escolas pesquisadas podem se repetir em vários centros de ensino de Fortaleza e de outras grandes cidades.

Investigar o nível de interferência que o excesso de ruídos tem no rendimento escolar dos alunos será o próximo passo do estudo. Com essas informações, os pesquisadores esperam desenvolver junto com o poder público uma maior atenção para os problemas de acústica das escolas, que poderão ser resolvidos de forma mais eficiente a partir de mudanças estruturais.

Fonte: Prof. Mário Azevedo, do Departamento de Engenharia de Transportes – e-mail: azevedo@det.ufc.br

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