Os mapas afetivos permitem relacionar o ambiente aos sentimentos dos jovens, tentando agrupá-los em categorias de imagens do lugar (Arte: David Mota/UFC)
Os mapas afetivos permitem relacionar o ambiente aos sentimentos dos jovens, tentando agrupá-los em categorias de imagens do lugar (Arte: David Mota/UFC)
Sociedade e Cultura

Pesquisadores estudam o mapa afetivo da juventude de Fortaleza

Laboratório de Pesquisa em Psicologia Ambiental da UFC investiga como a relação com o bairro é capaz de potencializar suas ações

Em casa, na escola, no trabalho ou na universidade, a relação com o ambiente tem influência no nosso comportamento e é um fator que ajuda a definir nossa identidade. Estudo do Laboratório de Pesquisa em Psicologia Ambiental (LOCUS), do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Ceará, tem analisado a relação de jovens de baixa renda de Fortaleza com os lugares que costumam frequentar e como isso afeta os “sentimentos potencializadores de ação”.

O grupo de pesquisa trabalha com a ideia de estima de lugar, definida a partir da projeção dos mapas afetivos, um método de investigação dos afetos com relação ao ambiente. Eles foram construídos a partir de vários questionários aplicados a 293 jovens de escolas públicas de Fortaleza, distribuídas entre cinco Regionais da cidade, e de desenhos elaborados por esses estudantes.

Dessa forma, os mapas permitem relacionar o ambiente aos sentimentos dos jovens, tentando agrupar esses sentimentos em cinco categorias de imagens do lugar: pertencimento, agradabilidade, destruição, insegurança e contraste.

Livros sobrepostos uns aos outros e sobre a mesa (Foto: Ribamar Neto/UFC)

O Locus tem produções voltadas à avaliação da relação afetiva entre as pessoas e o ambiente. A pesquisa mais ampla, com a juventude de Fortaleza, é realizada em parceria com o Nucepec e Lapsus, ambos do Departamento de  Psicologia (Foto: Ribamar Neto/UFC)

A coordenadora do projeto, Profª Zulmira Bonfim, explica que as categorias de pertencimento (vínculo com o ambiente) e agradabilidade (atratividade do lugar) são potencializadoras de ações positivas. Por outro lado, sentimentos de insegurança (sensação de instabilidade) e destruição (categoria ligada aos aspectos físicos, como sujeira e desgaste) vão na linha oposta. Já o contraste remete às contradições existentes nos locais (amor à cidade, ainda que ela seja insegura, por exemplo).

A soma de todas essas categorias cria o que os pesquisadores chamam de “estima do lugar” – um indicador da participação e das relações da pessoa com sua cidade. Quando a tônica dos sentimentos é de pertencimento e agradabilidade, a estima é “potencializadora” das ações, indicando participação do sujeito e implicação deste com o ambiente. Quando a tônica se dá na destruição e insegurança, a estima é “despotencializadora”, indicando o oposto.

A pesquisa em Fortaleza encontrou uma correlação positiva entre o sentimento de pertencimento ao lugar com os chamados “aspectos protetores” do jovens: autoestima, autoeficácia e perspectiva de futuro. “Quanto mais se estima o lugar, mais a autoestima do jovem tende a aumentar”, sintetiza a pesquisadora.

NO BAIRRO, O MAIOR PROBLEMA

A pesquisa chegou à conclusão de que as vulnerabilidades apresentadas pelos jovens – principalmente aquelas de ordem afetiva – têm ligação diferente com o bairro e com a escola. Quando confrontados com sua relação com o bairro, era comum, por exemplo, que os jovens apontassem medo, desconhecimento da região e sensação de falta de pertencimento.

Os alunos sentem-se “aprisionados” por não fazerem suas atividades livremente, seja pela falta de lazer, seja pelo perigo de assaltos. A pesquisa identificou ainda uma sensação de degradação e registrou a ausência de postos de saúde.

No caso das escolas, o principal ponto que interfere na estima dos alunos também se referia à degradação do espaço escolar, somado à relação com os professores, às vezes desgastada pelo dia a dia.

“Quando os alunos respondiam que se vinculavam à comunidade, vimos que havia uma correlação entre esse sentimento e sua autoestima”

Com o resultado das pesquisas em mãos, a equipe realizou ações de intervenção, como rodas de conversa e círculos de cultura, além de trilhas no bairro associadas a oficinas de fotografias, em que os alunos visitam e fotografam locais mencionados por eles na pesquisa. “As trilhas ajudam no cuidado e conhecimento do lugar, contribuindo com o sentimento de pertencimento e, na nossa teorização, a diminuição das vulnerabilidades psicossociais”, explica a professora.

MOBILIZAÇÃO

A estima de lugar e os mapas afetivos também podem ter ligação com a participação de uma pessoa em agremiações ou associações no local onde vive. Há uma estima potencializadora nos indivíduos que se envolvem em atividades de grupos, uma vez que eles falam sobre o bairro ou a cidade a partir de sentimentos de pertencimento e agradabilidade.

“Se me sinto incluído na comunidade, se a sinto como algo que me potencializa, eu tendo a me envolver mais com ela, cuidar dela e construir ações mais potencializadoras”, diz. “Quando os alunos respondiam que se vinculavam à comunidade e achavam que ela era uma extensão deles mesmos, vimos que havia uma correlação entre esse sentimento e sua autoestima”, conta Zulmira.

Grupo de pesquisadores do Locus sentado em volta da mesa (Foto: Ribamar Neto/UFC)

O Locus (Profª Zulmira ao centro) espera construir junto à gestão pública a ideia da afetividade (Foto: Ribamar Neto/UFC)

A vinculação com o local vai além dos aspectos físicos: mesmo boas estruturas podem não ser o necessário para o pertencimento e a agradabilidade de uma pessoa, o que revela a subjetividade da estima de lugar. “Às vezes, um campo de futebol que se transforma em praça não é bom porque o campo podia ser o lugar de encontro (dos jovens de determinado bairro). Se a Prefeitura o transformar em uma praça, eles vão buscar outro lugar – se é que ainda o encontram”, exemplifica.

Por isso, o LOCUS espera, com utilização de mapas afetivos, sugerir à gestão pública que as políticas ambientais na cidade precisam considerar os afetos e as necessidades dos moradores, ficando assim mais próximas da realidade de cada bairro.

“As pessoas dentro de um escritório não vão saber o que é melhor para os habitantes daquele lugar onde se quer intervir. Somente os próprios habitantes a partir de suas emoções, seus sentimentos e seus afetos”, defende Zulmira. “Os técnicos ou urbanistas precisam aliar o conhecimento da realidade cotidiana ao dos afetos. Dessa forma, é possível haver uma intervenção urbana ética e emancipadora”, complementa.

Fonte: Profª Zulmira Bonfim, do LOCUS – fone: 85 3366.7648 / e-mail: locus-ge@googlegroups.com