Trecho de obra da transposição do São Francisco, com por do sol ao fundo (Foto: Divulgação/Governo Federal)
Algumas correntes acreditam que a transposição do São Francisco (na foto) não será suficiente para suprir a demanda do Nordeste (Foto: Divulgação/Governo Federal)
Ciências

Transposição: do Tocantins ao São Francisco

Especialista no estudo de transposições de bacias pelo mundo avalia projeto de transpor o rio Tocantins, hoje em discussão no Brasil

Projeto que tem gerado debate, dos pontos de vista ambiental e econômico, a transposição de águas do rio Tocantins já é uma pauta em avaliação no Congresso Nacional e no Ministério de Integração Nacional. A ideia é que o rio, com 2.416 quilômetros de extensão, seja interligado até chegar na barragem de Sobradinho, onde alcançaria e revitalizaria o São Francisco, curso de água também em transposição, auxiliando na tarefa de abastecer o Nordeste.

O Prof. Renato Sílvio, do Departamento de Engenharia Agrícola da Universidade Federal do Ceará, tem se debruçado sobre o assunto a partir da experiência internacional de transposição de bacias, incluindo o bem-sucedido caso da China, onde duas operações foram feitas para levar água do sul úmido ao norte seco.

O pesquisador argumenta que a transposição do Tocantins é uma necessidade da região Nordeste, diante dos possíveis colapsos de falta de água nos grandes centros urbanos, como Fortaleza, e da incapacidade do São Francisco de garantir a segurança hídrica da região. Ele alerta, no entanto, que é necessário elaborar estudos que dimensionem os impactos socioambientais da obra.

Professor Renato Sílvio sentado e levantando o braço em tom de explicação (Foto: Jr. Panela/UFC)

O Prof. Renato Sílvio avalia casos bem sucedidos de transposição de rios no mundo e defende que investimentos dessas tecnologias sejam feitos no Brasil (Foto: Jr. Panela/UFC)

O professor explica que a vazão do São Francisco é apenas 2.900 m³ por segundo, dos quais 26 m³ serão aproveitados para o Nordeste e divididos entre estados dos eixos leste e norte. Para o Ceará, apenas cerca de 8 m³ por segundo serão disponibilizados, incapazes de suprir a necessidade até mesmo da região metropolitana, atualmente de 9,3 m³ por segundo.

Já o Tocantins tem uma vazão média de 13.600 m³ por segundo. O argumento é que, se 50 m³, por exemplo, fossem retirados para a transposição, haveria pouco impacto no rio originário, mas já seriam capazes de aumentar consideravelmente a vazão do São Francisco, resolvendo boa parte do problema de abastecimento das regiões Norte e Nordeste.

Segundo o Prof. Renato, a retirada de águas do Tocantins não teria grande efeito sobre as atividades de agricultura irrigada da região, visto que esta é suplementar e não primordial, servindo para suprir faltas em eventualidades. “Não é o caso do Nordeste. Aqui, sem irrigação, não temos alimentos, agronegócio e agroindústria. Os empreendimentos não têm a segurança hídrica necessária”, lembra o pesquisador.

“Precisamos aprender a viver com esse conflito: tomar cuidado com a segurança hídrica, mas ao mesmo tempo estudar todos as repercussões ambientais”

Outro agravante está no índice populacional da região, a maior do mundo a viver em semiárido, com um número de habitantes que cresce exponencialmente. “Em Fortaleza, tínhamos 1 milhão de pessoas há 30 anos, hoje já temos 2,5 milhões. O São Francisco vem trazendo água para todo mundo desde Minas Gerais, e é muita coisa para dar conta”, argumenta Renato.

ENERGIA

Apesar de só agora ganhar relevância, o projeto percorre a Câmara dos Deputados desde o início dos anos 1990, mas sempre esbarrou em problemas como o custo da operação. Em sua atual versão, a transposição teria cerca de 700 quilômetros de extensão e precisaria de um investimento de R$ 500 milhões, gasto do qual 60% seria apenas para pagar a energia necessária para bombear a água nas regiões de aclive.

Por outro lado, uma vez nos relevos altos, o resto do percurso da água seria realizado apenas por efeito da gravidade, com potencial para geração de energia. “Pode ter que elevar até 600 metros. Mas a ideia é que, quando a água chegar ao ponto alto, uma hidrelétrica seja construída. Controlamos aquela vazão e a energia já paga parte do que foi gasto para elevar a água”, justifica.

Prof. Renato Sílvio apontando para o açude Santo Anastácio, no Campus do Pici da UFC (Foto: Jr. Panela/UFC)

O professor lembra que o problema da utilização de recursos hídricos está no sobreuso, sem respeitar a capacidade de regeneração do rio (Foto: Jr. Panela/UFC)

Por outro lado, o pesquisador lembra da necessidade de se avaliarem os impactos ecológicos de obras como essa, capazes de transformar toda uma região. “Precisamos aprender a viver com esse conflito: tomar cuidado com a segurança hídrica, mas ao mesmo tempo estudar todos as repercussões ambientais”.

Ele lembra que uma das principais questões de risco envolvendo os rios está no consumo indiscriminado da água naturalmente fornecida, às vezes maior do que a capacidade natural da recarga para a manutenção da sustentabilidade. “As fontes hídricas têm uma recarga natural e é preciso manter o consumo em níveis menores. Em muitos casos em que a fonte secou, o problema foi o consumo maior do que a recarga”, diz, citando o caso do mar de Aral, na Ásia Central, hoje com 80% do volume perdido.

“Sem água, não dá para discutir atividade agrícola, refinarias, siderúrgicas, nem quaisquer outros empreendimentos necessários ao desenvolvimento socioeconômico sustentável da região”

O caso do mar do Aral, quarto maior lago do mundo, é considerado uma das mais dramáticas alterações na superfície terrestre. O lago, que possuía um espelho de 60 mil quilômetros de água, hoje está restrito a pequenas áreas e viu a paisagem transformar-se em deserto. O motivo foram as sucessivas retiradas de água, ao longo das últimas décadas, de suas duas principais fontes, os rios Amu Daria e Syr Daria, pelo antigo regime soviético para estimular as plantações de algodão.

AMAZONAS

Apesar da avaliação do projeto de transposição do Tocantins ainda estar em curso, o Prof. Renato já discute a possibilidade de transpor também o Amazonas, maior rio do mundo. Ele acredita que, diante dos 200 mil m³ por segundo de vazão, o curso de água seria capaz, com apenas mil m³, de garantir toda a água necessária para abastecer o País. “Para o rio, não faria cócegas. Mas, para nós, seria maravilhoso”, diz.

A transposição do Amazonas criaria uma espécie de rede hídrica, que também se ligaria ao Tocantins e ao São Francisco. “Isso já é pensando que, à medida que vamos desenvolvendo o País, vamos precisar de mais recursos hídricos”, explica. “Sem água, não dá para discutir atividade agrícola, refinarias, siderúrgicas, nem quaisquer outros empreendimentos necessários ao desenvolvimento socioeconômico sustentável da região.”

Fonte: Prof. Renato Sílvio, do Departamento de Engenharia Agrícola – fone: 85 98786 0262 / e-mail: renato@ufc.br